Já dizia o velho deitado: 'se você não for comunista aos vinte, não tem coração. Se continuar comunista aos 30, não tem cabeça'. Talvez a minha seja a última geração pra quem esse dito tenha feito sentido... Ainda bem.
Fácil de compreender: nossos 20 anos começaram no final da década de 90, no meu caso em 97. Contextualize-se: nesse tempo a gente não tinha celular. Ninguém tinha, era coisa de tiozão cheio da nota. Quem era mais descolado carregava um bip, pra receber recados via uma central, o que era emocionante. E-mail era novidade, até poucos anos antes, eu escrevia cartas pros meus amigos de fora, e ficava louca quando o carteiro chegava.
Eu trabalhava no DCE da federal, era uma das coordenadoras. Na real 'trabalhar' não era bem o termo, mas era a forma de representação política mais simples que havia naqueles tempos não muito distantes cronologicamente: Para que alguém se pudesse fazer ouvir, deveria obrigatoriamente estar vinculado às instituições que lhe dariam o respaldo suficiente pra isso, o que significa que não possuíamos, individualmente, voz ativa nenhuma. Ao exemplo do DCE, consumíamos horas e horas de nossas cabeças para chegar a uma opinião comum, que deveria ser transmitida à reitoria, ou pró-reitorias, ou o escambau.
É certo que, pelo excesso de burocracia e pela impossibilidade de repercussão das opiniões individuais, os jovens daquela época se sentiam sempre mal-representados. Era necessário se posicionar, rezar na cartilha do grupo que você apoiasse. Ou se era assim, ou era assado; frito, cozido, banho-maria, refogado, qualquer individualização era facilmente confundida com alienação (coisa que doía bastante de ouvir). É o que dá conviver desde sempre com a obrigatoriedade do institucional.
Hoje temos petições online, temos wikileaks. Assistimos, embasbacados, à verdade nua e crua que sempre buscamos: o indivíduo adquiriu voz política. Só precisávamos de um pouco de tecnologia.

Mutxo bão
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