domingo, 19 de dezembro de 2010

virada cultural

Sabe aquele boteco pé sujo que tem na frente dos arcos de flores da Tiradentes... então, vendeu cerveja até acabar. No dia seguinte, estimulados, os proprietários descolaram um latão, encheram de gelo e de cerveja boa e barata. Venderam tudo. Devem ter tirado em dois dias a grana de um mês. Lá dentro, além dos fregueses habituais tinha meninas, mulheres, galera, famílias, todo mundo junto.

O estímulo foi a festa de qualidade, bem localizada: na rua. Ninguém podia perder, os shows eram ótimos, e os dias tavam incríveis, sol e calorzinho inesperados. O resultado foi que a cidade inteira participou. Inteira, com suas peças humanas, materiais e relacionais.

Já se falou muito sobre a importância de se ocupar o espaço público com atividades interessantes 'para que as pessoas vivam a cidade-apropriem-se dela e a tornem um espaço democrático-de convivência-e que todos os envolvidos ganham-e fomenta-se o comércio local'-e blá-blá-blá. Eu mesma já repeti esse discurso inúmeras vezes. Ver isso acontecer por aqui, porém, foi uma grande surpresa.

Evento musical aberto ao público favorece aproximar as pessoas pelo que há de comum, num espaço em que normalmente elas se afastam pelo que há de diferente. A rua tem esse paradoxo, e experimentar o lado B foi algo inesquecível. Tanto pra quem curtiu o som e o ambiente pacífico e leve que se produziu, quanto para a tia do boteco, que inteligentemente se valeu da oportunidade de tirar uma grana. Detalhe: ninguém pisou nos canteiros.

A cidade tava viva, respirando. Se ela tiver sexo com certeza gozou repetidamente durante esses dois dias.


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

otimismo incorrigível

Já dizia o velho deitado: 'se você não for comunista aos vinte, não tem coração. Se continuar comunista aos 30, não tem cabeça'. Talvez a minha seja a última geração pra quem esse dito tenha feito sentido... Ainda bem.

Fácil de compreender: nossos 20 anos começaram no final da década de 90, no meu caso em 97. Contextualize-se: nesse tempo a gente não tinha celular. Ninguém tinha, era coisa de tiozão cheio da nota. Quem era mais descolado carregava um bip, pra receber recados via uma central, o que era emocionante. E-mail era novidade, até poucos anos antes, eu escrevia cartas pros meus amigos de fora, e ficava louca quando o carteiro chegava.

Eu trabalhava no DCE da federal, era uma das coordenadoras. Na real 'trabalhar' não era bem o termo, mas era a forma de representação política mais simples que havia naqueles tempos não muito distantes cronologicamente: Para que alguém se pudesse fazer ouvir, deveria obrigatoriamente estar vinculado às instituições que lhe dariam o respaldo suficiente pra isso, o que significa que não possuíamos, individualmente, voz ativa nenhuma. Ao exemplo do DCE, consumíamos horas e horas de nossas cabeças para chegar a uma opinião comum, que deveria ser transmitida à reitoria, ou pró-reitorias, ou o escambau.

É certo que, pelo excesso de burocracia e pela impossibilidade de repercussão das opiniões individuais, os jovens daquela época se sentiam sempre mal-representados. Era necessário se posicionar, rezar na cartilha do grupo que você apoiasse. Ou se era assim, ou era assado; frito, cozido, banho-maria, refogado, qualquer individualização era facilmente confundida com alienação (coisa que doía bastante de ouvir). É o que dá conviver desde sempre com a obrigatoriedade do institucional.

Hoje temos petições online, temos wikileaks. Assistimos, embasbacados, à verdade nua e crua que sempre buscamos: o indivíduo adquiriu voz política. Só precisávamos de um pouco de tecnologia.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

piá de prédio

Ao contrário do que se imagina a princípio, o piá de prédio não mora, necessariamente num prédio. Não passa seus dias com o nariz enfiado no computador ou no playstation 3, não usa óculos fundo de garrafa e nem tem aparelho dentário com elásticos azuis. Esse aí é um nerd clássico, não um piá de prédio.

O piá de prédio é aquele que não gosta da diferença. Não gosta, evidentemente, porque não conhece, vive rodeado de conceitos de seu próprio mundo, dentro da bolha do socialmente tolerado. O piá de prédio, se pelo menos tivesse os costumes do nerd espinhento, conheceria mais do que o quadrado de sua própria família, de sua escola tradicional ou de sua roda de amigos da puc.

Por esse motivo o piá de prédio é a cara do preconceito, não gosta de gays (mulher tudo bem, fica bonito). Não conversa com o porteiro, nem com o garçon. Reproduz a certeza de superioridade que nem ele sabe que tem de tão natural que é; já que seus pais e amigos só dão bom dia pro caixa do mercado 'por educação'.

O piá de prédio não tem uma 'cara', seu correspondente feminino nem sempre usa cabelo loiro esticado (embora muitas vezes o use). O piá de prédio é mundialmente reconhecido por engolir e cagar, sem qualquer processamento, as regras do mainstream. Ele não percebe que o mundo muda a cada minuto, e que o medo da diferença tá, no mínimo, fora de moda.

domingo, 5 de dezembro de 2010

cuidado com furtos no interior do veículo

Dirigir nunca foi meu forte. Tinha se tornado, aliás, uma atividade demasiado cara para os padrões dos meus bolsos e das minhas emoções, tamanha a quantidade de multas, batidas, encostadas, arranhadas e sustos que tomei nos últimos anos.

Solução: simples, vender o carro, pagar as multas e impostos em débito, não gastar mais com gasolina, ipva, e nem com as onerosas eventualidades. Andar! Melhor, comprar uma bicicleta e unir o útil ao agradabilíssimo, já que o exercício físico necessário ao bom funcionamento dos meus neurônios estaria garantido. Além do fato de que tá na moda, é cool. Carro é coisa de gente antiga, alguém me disse. Concordo, e eu não sou antiga.

Surgiu um problema: ia ter que carregar o notebook. Carregar notebook não é das coisas mais agradáveis que se possa fazer a pé, ou de ônibus, por dois motivos: um, obviamente, é que pesa. O outro é que é perigoso. Podia pegar a bike, claro. Mas para isso é preciso não estar chovendo, coisa rara por aqui, ou seja, longas distâncias exigem ônibus. Na primeira vez, enfiei o note mocadinho na mochila, dei uma bandeira absurda segurando a mochila na frente por causa do peso e do medo, além do peso do medo. Não foi legal. Na segunda, relaxei, pus numa sacola. Com o passar dos dias, tava levando debaixo do braço, percebendo que tinha muita gente fazendo o mesmo que eu.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

a velhinha do xixi

Aqui na frente da escola tem uma pracinha.

Enfim, tem um triângulo de grama com uma árvore no meio e uma pedra ao lado. Em geral quando chego aqui sempre tem alguém largado curando o porre embaixo dela. Normal, vocês diriam. Praças são o lugar ideal para isso, principalmente numa região agitada como essa.

O mais interessante, porém, é que essa praça, além de servir de cama para os junkies da área, serve de banheiro para uma velhinha bem conhecida por aqui.

Ela chega lá pelas três da tarde, sempre puxando um carrinho de feira cheio de sacolas. Plácida, arria as calças, vira de frente para a rua (o que significa virar de bunda para nós que estamos dentro da escola), segura a blusa e se alivia. Xixi? Infelizmente nem sempre. Terminado o serviço a velhinha saca da sacola pedaços bem dobrados de papel higiênico, faz sua higiene, guarda os papéis usados num outro saquinho plástico. Apruma-se, vai embora.

Melhor ainda é a reação dos transeuntes ao presenciar o ritual da velhinha. Claro, porque ela não espera ninguém passar, o banheiro é dela, para o azar dos mais recatados, surpresa dos não iniciados e risadas dos bem-humorados.

A informação que obtive é que ela tem uma casa grande aqui no centro e mora sozinha. Passa o dia circulando com seu carrinho e suas sacolas. Por que raios ela entende que a praça é o seu banheiro é a pergunta que não quer calar.



quarta-feira, 17 de novembro de 2010

un peu d'urbanité

urbanité: affabilité, amabilité, manières, politesse, usage.

Esse termo é bem antigo, embora pouco compreendido. Todo mundo sabe o que é ser amável com o próximo ou ter boas maneiras, mas em geral se escolhe a quem tratar bem, mesmo sem se dar conta.

Um exemplo de urbanidade: Ontem à noite entrou aqui na escola um rapaz, justamente no intervalo da aula da noite. Cumprimentou a todos os alunos, assim como a nós. Perguntamos o que ele queria. Respondeu que queria estudar. Sacou da mochila uma apostila bastante manipulada, disse que estava fazendo curso de panificação. Sorrindo mais que a boca ele abriu a apostila e nos mostrou. Disse que há vinte anos morava na rua, que estava 'limpinho' porque agora vivia num pensionato. Engrenou num papo com minha mãe, que o parabenizou pela iniciativa nos estudos. Até aí ninguém acreditava no que estava vendo, tudo muito inusitado. Uns acharam que seriam assaltados e fecharam a cara, outros se aprontaram para defender minha mãe. Mas o rapaz queria uma coisa: ser ouvido. Tá bom, tá bom. Ele queria dinheiro também, segundo ele para pagar a noite da pensão (sabe-se lá o que fosse fazer com a grana), mas assegurou que iria devolver o empréstimo. Disse ainda que voltaria, com o diploma de padeiro na mão, só pra mostrar pra ela.

Ok... solos de violino à parte, já que a questão é bem mais séria do que parece: fosse hostilizado, ou mesmo ignorado, possivelmente a grana ia parar na primeira pedra que aparecesse no caminho (mesmo porque, aqui na frente do canal do chorão não precisa procurar muito). Ninguém sabe o que foi feito do dinheiro, nunca se vai saber. Mas ao sair, o cara falou pra minha mãe: 'Eu sei falar pão em francês: é pain'. Sabe aquele ditado, violência gera violência? Então... o inverso é bem verdadeiro. Isso tem nome, é saber conviver inteligentemente em sociedade, isso é urbanidade.

sob o olhar do urubu

Nunca fui urubu. Não que eu saiba. Mas é um bicho interessante: fica lá no alto, só observando, quase um monge. Tá frio, tá calor, ele tá lá. Não gasta energia a toa, bicho perfeitamente adaptado à vida urbana. Já causou curiosidade na literatura, como no romance de Novaes, já reprimiu em J. J. da Veiga a população inteira de uma cidade.

Além do lirismo e da sátira, quando os urubus invadem os bairros das cidades eles não deixam de ser notados: não se incomodam com você mas assustam, mau agouro! Feios ou não eles são safos, espertos, e sobrevivem. Fico pensando na opinião do urubu sobre a cidade, esse ser urbano. Deve ser objetiva, pouco romântica, baseada na adaptabilidade, na realidade do movimento, das oportunidades e da transformação natural.

A idéia deste espaço é discutir os assuntos urbanos sob a ótica urubuzística: flexível, sagaz, sem drama. Opinião daquele que vive conforme a vida.